arremessaste-me contra a parede onde deixei que escorressem todas as mentiras e silêncios que, imagina, ignorei. infiltraram-se pelas fendas do soalho e esgueiraram-se até ao centro de nenhures.
o resto é o silêncio quebrado sem mata borrão onde deixar rasto.
descem corredias as impressões digitais tateantes no rosto na curva do queixo desfazendo o malabarismo da orelha até à curva do pescoço
espera. Sorriso :
... não não me queimas de pele. eu disse-te.
num meu aparte :
o teu perfil. gosto. Sorrio quando me chega. o olhar cirúrgico antecedendo o tremor do fumo do cigarro. gosto. não me vês e gosto. és o meu aparte. algures no meu mundo
___________hoje? nada. não foi nada. apenas mais um risco na parede.
[ou terá sido um risco a mais na parede?]
e: disse
mas lembro-me que gastei muito d'hoje pensando no que te escreveria agora.
sabes: - o mundo por dentro é enorme pensado desejoso sonhando mas é no agora que sucede aos hoje que as palavras enrouquecem se protegem em nó e passam mansas ante olhos alheios.
sentou-se escondeu-se por entre o vício e o gesto da timidez e disse :
imaginar-te não é apenas imaginar-te mas querer-te de posse como eu quero e tu nem imaginas e possuo-te sempre que desfilas o Olhar e a Alma nas linhas que escrevo tombando nos entre espaços sem vírgulas com que te provoco
não sabes mas neste momento o meu joelho toca o teu e desenha ritmos no ar o meu fumo beija-te o rosto trazendo-me o teu gosto aos sentidos
não sabes mas eu sei e é sabendo que te construo em cada noite em que te pertenço e tu não chegas a saber
______________invasão discreta à obediência do corpo
diz :
leu-o no Verbo no Hoje das palavras depois do Tempo do crescer da confiança desse Sempre que tem permanecido igual coeso Sabê-lo é Senti-lo não seu não posse... mas Dentro na Alma
saboreia-o .
quando o lê quando o ouve quando o experimenta nas veias e em desejos de mil cores em cada palavra que lhe dedica
o que em mim ainda há de nu resguarda-se além da escrita. uma porta fechada que disfarço puxando o canto da boca que sorri uma palavra amarga que enfeito enquanto o resto do meu corpo foge e se refugia na colina que construí
e sempre a maldita chave na porta desafiando as mãos a força dos murros
| hoje trouxe-me pela memória até esses momentos em que me lias fixando apenas o meu olhar era a vida que se construía em que tentávamos que os caminhos fossem um não te desvies de mim dizias :
como seria viver longe de ti? sabes? não, não o descobri até hoje |
nunca se reviu nas estocadas passos adiante passos atrás era sempre confiante o trato a forma e a continuidade dos toques de esgrimista ferindo sorridente
o caminho prometia-se em frente ignorando o que ficava para trás
]não chegou a perder-se porque já tinha dobrado o mapa[
e se o teu olhar tivesse já visitado o meu e o tenha evitado talvez por gostar talvez por sentir ou talvez por coisa nenhuma
e se coisa nenhuma tivesse sido toque roçar ignorados ou com licença obrigada
e tudo fosse inocente útil ou não
e se o teu olhar tu tivessem acompanhado a minha sombra até casa entrado na minha intimidade e tivessem ficado sentados no banco da cozinha partilhando o meu jantar
e se...
: diz!
e se tudo pudesse ter sido assim seríamos nós ainda [as]sim dispersos e impossíveis?
| no princípio era simples o universo de branco pintado também nos muros em que escrevia |
e foi a articulação de um eu sem nome - apenas eu - no estado natural em que me colocava cada dia sem me questionar se o lugar era mesmo meu e aquele se o lado da sombra me pertencia
sem nome ainda desarticulei-me do que de mim sabia e comecei a seres também tu no meu ouvido por caminhos curvos até à minha alma
:
d(a)mar a trajetória água fresca na antecipação dos meus dias e sempre a par comigo